Sábado, Junho 07, 2008

Mandaste muito bem!

A elegância verbal de Cézar Busatto é única e ele deu um exemplo da sua sofisticação na comunicação:
O vice-governador é um mau caráter. Ele não é um homem honrado.
Busatto também chamou Feijó de "golpista", comentário vindo de um homem que era do MR-8, uma organização guerrilheira que participou do seqüestro do embaixador americano Elbrick e que era financiada pelo Saddam Hussein, um exemplo mundial de respeito ao jogo democrático . Este avançado nível de linguagem é bem típico de esquerdistas e seus ataques ad hominem (algo que está no item 28 das "140 verdades sobre os esquerdistas"). Mas o que estaria causando tamanha raiva no agora ex-chefe da Casa Civil de Yeda Crusius-Credo?

Bom, o que está fazendo Busatto arrancar seus últimos fios de cabelo é a divulgação por parte do vice-governador Feijó de uma fita gravada no dia 26 de maio no Palacinho (a sede da Vice-Governadoria) onde Busatto, por assim dizer, explica o "funcionamento" do governo estadual. O trecho mais interessante da música número 1 nas rádios gaúchas:
Todos os governadores só chegaram aqui com fonte de financiamento - hoje é o Detran, no passado foi o Daer. Quantos anos o Daer sustentou?
Mas os ataques pessoais a Feijó, que fez um bem inestimável ao Rio Grande do Sul (ato digno de um estadista) gravando e divulgando a conversa, não ficaram reduzidos ao candidato a implante de células-tronco no couro cabeludo. A senadora Marisa Serrano (Petista de Pluma-MS) também foi na linha de Busatto em acusar Feijó de querer derrubar a governadora. Eu entendo perfeitamente a falta de criatividade de Serrano, ela está muito ocupada escrevendo o livro Dicas de Como Presidir com Sucesso uma Comissão Parlamentar de Inquérito. E, vê bem, Serrano tem uma longa história de sucessos em CPIs e Conselhos de Ética. Não tenha dúvidas que Serrano terá igual sucesso ao alcançado pelo clássico da língua portuguesa, Guia para Redação de Pareceres Vitoriosos sobre Decoro Parlamentar.

Cansados de argumentar contra a pessoa de Feijó, os defensores do Novo Jeito de Governar (que é mais antigo do que foto do Busatto com todos seus fios de cabelos) começaram a atacar a "legalidade" da gravação. Como diria a autora do livro Mil Maneiras de Vestir um Terninho de Manga Curta Crusius:
Quem estava gravando sabia que estava gravando e pode fazer o teatro que bem quis. Busatto saberá dar a volta por cima. Tudo que ele fez na vida não se apaga com uma gravação. A fala gravada não tem valor ético ou moral quando um sabe que está gravando e outro não sabe que está sendo gravado.
E convosco a Doutora em Ética das Gravações de Conversa e I will rest my case! Outra declaração de elevado conhecimento de ética foi o de Paulo Sant'Anna no Zero Hora de sábado:
O gravador é um intruso indesejável e destruidor da intimidade de uma conversa. Ele não se compatibiliza com receber uma pessoa, oferecer-lhe um cafezinho, apertar-lhe a mão depois de longa conversa - e ir oferecer logo em seguida à oposição e à imprensa o teor do que foi conversado.

Foi muito feio.
Claro, bonito seria ficar calado. Pois Sant'Anna fala em "intimidade de uma conversa". Salvo melhor juízo, os dois participantes da conversa eram funcionários públicos, em cumprimento de suas funções e em prédio governamental. Pois eu resolvi ler o art. 37 da Constituição federal:
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (...) (grifo meu)
Aliás, seria de muitíssimo bom tom que todas as conversas de governantes fossem gravadas e transcritas para pesquisa, pois assim daria ao povo a oportunidade de conhecer melhor seus governantes. Algo na linha Ato dos Registros Presidenciais americano. E quanto a legalidade das fitas, vamos ouvir o Procurador-Geral de Justiça Renner:
Zero Hora — Na forma como foi obtida a gravação, o senhor identificou alguma ilegalidade?
Mauro Renner —
Não há ilegalidade tendo em vista que a gravação foi feita por um dos protagonistas. Há um entendimento no Supremo Tribunal Federal que sendo realizado dessa forma, não há ilicitude nesse comportamento adotado. A questão ética, moral, é outra situação. Mas ilicitude não há.

ZH — As gravações seriam provas válidas?
Renner — É válido como prova dentro de um contexto, como um início de investigação. Isso é possível.
E sim, Feijó consultou o ex-presidente do Tribunal de Justiça do RS, o excelente e particularmente apropriado Marco Antônio Barbosa Leal, que deu o sinal verde para a gravação, e disponibilizando-se para ser o advogado de Feijó. Só de brinde, Leal fez um agradável comentário sobre o choro de Busatto quando do anúncio daquele golpe de propaganda chamado de Pacto pelo Rio Grande:
Esse mesmo choro (de Busatto) que vi na TV, vi de uma moça que, juntamente com o namorado, matou os próprios pais. Ela chorava no velório. Talvez esse deputado chore comemorando as exéquias (honras fúnebres) do Judiciário.
Comentário fora de contexto mas ainda assim foi ótimo! Mas nada supera a desculpa de Busatto para ser gravado:
Estou me sentindo vítima de uma verdadeira armação, tocaia, de uma armadilha safada.
Realmente, nada bate um esquerdista e suas peculiares adjetivações. "Armadilha safada", "tocaia", só faltou chamar o Feijó de "cangaceiro do gravador".

Feijó, só posso dizer que tu mandaste ver muito bem com esta gravação. Este ato foi uma das melhores coisas que já ocorreram na história política do estado. A propósito, o Feijó é uma das melhores surpresas da cena política gaúcha, mesmo que eu tenha montado um blog só para criticar o teu.

P.S.: Fiz alguns comentários divertidos sobre a condição capilar de Busatto, por favor Feijó, não me leve a mal, mas não poderia perder a oportunidade.

0 comentários: